Contando ninguém acredita.
Hoje, quando eu voltei do trabalho, me veio a minha mãe: "Vamos no Sam's Club?" Como atualmente a minha maior diversão é ir no supermercado mesmo, topei. Fomos eu e meus pais, inadvertidamente embarcando em uma aventura que vai ficar para sempre na história dessa azarada família.
Cena do crime: o carro. Um Escort Hobby prata, todo limpinho e brilhante de uma recente faxina e recalchutagem.
Personagens: Meu pai: dirigindo. Minha mãe: no carona. E eu: atrás, no meio, conversando com os dois.
Conversa vai, conversa vem, agora nem me lembro mais sobre o que estávamos conversando. De repente, eu vejo de rabo-de-olho algo que faz gelar o meu sangue: no teto do carro, fazendo uma caminhada muito tranquilamente, estava uma barata. E não uma daquelas baratinhas minúsculas; um baita baratão.
Meu primeiro pensamento na hora foi, claro, "Puta que pariu!!". O segundo foi "Puta que pariu, a minha mãe vai morrer!". Imediatamente falei, tentando parecer calma, mas logicamente passando longe, "Pára o carro, pai". Como, para minha mãe, que é muito boa entendedora, pingo é letra, imediatamente ela adivinhou o que era.
E começou a berraria.
Eu me encolhendo pro outro canto do carro, o mais longe possível do tenebroso ser; minha mãe berrando a plenos pulmões e pronta para pular da janela do carro em movimento; meu pai, a besta, sem saber o que estava acontecendo; e a barata lá, calmamente continuando a sua viagem até o vidro traseiro.
Finalmente, depois do que me pareceu duzentos anos, o carro parou. A minha mãe não perdeu tempo e saiu voando do carro. O meu pai, a grandissíma lesma lerda e tapada, ficou sentado lá. E eu berrando para ele sair, porque de jeito nenhum eu ia sair pela porta da minha mãe e passar pela barata.
Quinhentos e quarenta e cinco anos depois, após eu ter um infarto ou sete, ele saiu da porra do carro e eu pude me juntar a minha mãe na calçada.
Chovia, estava escuro e ventando. Perfeito clima pra filme de terror. E começou a busca pela barata perdida.
Nada. O meu pai revirou o carro ali no meio da rua, e nem sinal da barata. Mas eu vi, eu JURO que vi. A minha mãe não queria nem pensar em entrar no carro. "Vamos pra casa a pé mesmo que eu não entro nesse carro até eu ver esse bicho morto". Eu concordei veementemente. Pegamos o guarda-chuva, um desses gigantões de vovó, o qual o meu pai estava usando para bater nos bancos do carro para ver se assustava a barata. Meu pai entrou no carro novamente, puto da vida, e ainda sem acreditar que eu tinha visto a droga da barata. Eu abro o guarda-chuva e começamos a andar, eu e minha mãe. Dois passos depois ela faz a brilhante pergunta: "Você olhou esse guarda-chuva?" Eu olhei pra cima e vi um vulto escuro. Berrei e soltei a porra do guarda-chuva e corri pra trás. Minha mãe, lógico, estava dez passos a frente, tendo saído correndo a mera possibilidade de uma barata.
O meu pai tinha andado com o carro apenas alguns metros e nós gritamos para ele parar. Eu e minha mãe, berrando como dementes e apontando para o guarda-chuva. "Está ali, está aliiii!" E nisso nós assustamos uma passante que, óbvio, riu da nossa cara. O meu pai foi, pegou o guarda-chuva e já não tinha mais nada lá, se é que realmente esteve. Naquele momento de pânico qualquer sombra me parecia uma barata, até os fones de ouvido em volta do meu pescoço.
A minha mãe novamente se recusou a entrar no carro, porque não dava para ter certeza se a barata tinha mesmo saído. Fomos andando pra casa. E eu ria, ria muito, porque, passado os momentos de desespero, a situação toda me parecia absurda, ridícula e totalmente hilária. E quanto mais a minha mãe mandava eu parar de rir, mais eu ria. Eu não conseguia parar de rir. Fui rindo o caminho todo, que não era muito longo, ainda bem.
Chegamos em casa antes do meu pai e eu subi para pegar o inseticida. Desci e o meu pai já estava com o carro na garagem, tirando tudo de dentro para mais uma vez procurar a infame barata. E tome-lhe inseticida. Ele encheu o carro de inseticida, cada canto e buraco, tudinho. E nada da barata. Finalmente desistindo, subimos, e cá estou eu (porque esta é uma história que simplesmente
deve ser contada).
O pior é que não dá pra ter certeza se a barata estava mesmo no guarda-chuva ou não. A minha mãe nunca mais entra naquele carro.
Demais, né? Eu devo ter feito uma coisa muito horrível na outra vida, porque essas coisas só acontecem comigo!
E agora pra fazer compras amanhã?